“O que é Ser Angolano”, o texto vencedor do Prémio UFOLO de Ensaio, da autoria de Paulo Malungo da Silva Júnior

nov 21, 2020 | Artigos, Concursos, Cultura, Destaque

Paulo Malungo da Silva Júnior, 19 anos, estudante de Direito, foi um dos vencedores do Concurso de Ensaio e de Audiovisual lançado pelo Centro de estudos UFOLO para a Boa Governação, este ano dedicado ao tema “O que é Ser Angolano”. Paulo Malungo recebeu o Prémio UFOLO de Ensaio, no valor de 1,5 milhões de kwanzas.

Além de propor uma visão abrangente da nacionalidade e da(s) identidade(s) angolana(s), com consciência histórica e um sentido apurado de cidadania e de celebração da diversidade, o autor revelou uma identidade literária própria, conferindo ao ensaio um pendor poético cujo valor criativo foi reconhecido pelo júri.

Leia aqui a versão integral do ensaio:

“Fiz-me a pergunta proposta para o concurso e o meu subconsciente respondeu-me:

Da frescura do jovial austral trazido da corrente fria de Benguela às entranhas da alma desta terra contempla-se, à boleia dessa história recente de registos e da sua cronologia, vida desde os primórdios da humanidade, nesta terra. O tempo foi deixando etnias para trás e cedendo melhor organização às novas comunidades que brotaram.

Herdeiro da soberania suada da escravidão centenária, há muito vencida pela emancipação negreira conduzida à corrente da tendência revolucionária reclamante da igualdade entre os homens no mundo, esse manto político e geográfico a que chamamos Angola tornou-se o elo agregador e de religião do grupo Bantu, que se desfez cómodo nos recantos da terra de que hoje reivindicamos pertença.

Do Bacongo ao Okavambo, a identidade concebe-se em nove povos de língua e etnia diferentes, cuja história, cultura e espiritualidade singular fazem da angolanidade o repouso de certa ambiguidade material, num primeiro olhar.

Por cá, a identidade que reclamamos desassocia-se do nacionalismo discriminador, abrigando a herança cultural de reinos cujas marcas resistem à nossa descontinuidade no tempo e na história.

A neutralidade da minha espiritualidade fecha-me a discriminação, encontro-me com a história para protecção e iluminação sempre que o sentido da vida se mostra vago.

Entendo como ninguém a relevância da longevidade e da experiência, por isso tornei a antiguidade dos Mais Velhos num posto que nas minhas crenças se faz sagrado, privilegiado e de grande autoridade social. Pois eles estão mais perto de se juntar à grande ancestralidade divina que protege a nossa sociedade.

A minha educação criou e convencionou um conceito alargado de família, em que o cuidado e a atenção são recíprocos e permanentes.

O meu óbito é uma celebração da minha vida. Grita-se nas lamentações aos antepassados o quão proveitoso foi o meu trajecto na terra, todas as minhas qualidades e a saudade que deixo, o mais escandalosamente possível. Porque as pessoas valem o que ouro e petróleo não conseguem pagar.

Sou cumpridor acérrimo dos deveres do alambamento, porque nele me permito agradecer à futura família a criação e educação da mulher com quem me dão permissão para me casar. Muno-me de prendas, porque é assim que se brindam as divindades que são os Mais Velhos na minha terra.

A minha puberdade presenteia a comunidade com o homem novo em que me torno e celebram-se as responsabilidades advindas da minha fertilidade com danças e cânticos entre os membros da minha vasta família. Os rituais de transição da puberdade são solenes e dão-me dignidade, respeito e permissão para o mundo adulto da preparação matrimonial, da obrigação laboral, etc.

Ser angolano é ser entendedor de uma ordem de justiça tradicional, onde o conceito e a aplicação do direito e da justiça estão enraizados nas diferentes culturas étnicas, desafiando as concepções convencionais.

É perceber os nossos preconceitos enquanto consequência de uma educação e da nossa afirmação num mundo coberto de adjectivos e de cores vivas e enquanto manifesto de uma identidade.

Hospedei-me numa nação onde zonas paradisíacas foram emprestadas à terra; uma nação onde a natureza enterrou grande parte dos seus preciosos tesouros, condenando-nos à mira da avareza e da ambição humana que comandam o mundo moderno; sou parte essencial destes tesouros, porque broto desse solo suportado pelos bons cuidados de uma pátria da qual nasço devedor e morro servidor, e vice-versa.

Sou dono de um solo que se eleva à grandeza do interminável Moco, abeirando-se da imensidão do céu, onde se exerce a liberdade de andorinhas e cegonhas contempladoras do acolhimento desta terra.

Na ondulação da Serra da Leba, deixo-me tomar por uma certa sensualidade subjugada, atraído pelos encantos da Huíla e do Namibe.

Vi sítios e monumentos materializarem-se em história e identidade que nos tocam os corações e nos avivam o sentido do ser social. Sou angolano pelo que figuras como o Jacaré Bangão, a Kianda, o Pensador, Mwnaa-Pwo e outros tantos dizem sobre mim. Também o sou pelo chamamento atractivo que me atiça as índoles etnocêntrica e patriótica, vindo da relevância histórica de lugares como a Pedra do Feitiço, Citundu Ulu, Mbanza Congo, Pedras de Pungo-a-Ndongo, etc.

Sou angolano, por render homenagem a personagens que todos nós muito devemos, como a Rainha Njinga e a Dinastia Ngola; o Rei Mandume; Lukeni Lua Nimi e muitos outros.

Sou cúmplice da traição aos valores e sonhos das gerações lendárias que deram corpo à poesia de parte fundamental da nossa história. Sou adepto da falência de um patriotismo esperado de pseudo-artistas, pseudo-desportistas e pseudo-políticos, impostos como referências de um povo sedento de lideranças que saibam vender esperanças ao tecido social necrosado.

Sou dos maiores fornecedores do ouro negro que sustenta o mundo, dando corda à economia de um sistema que boicota o meu próprio desenvolvimento. Estou ligado ao meu compatriota por uma linguagem espiritual que transcende esta que tomamos de empréstimo e que não reflecte as formas de pensar dos povos desta terra.

Na vida da minha cultura, manifesto desde o início o sofrimento que me pesa sobre as costas e crio alegria e razões de ser por entre o sufoco em que sempre vivi. Fiz dos ritmos expressões da amplitude do meu ser complexo. Num kuduro, alegrei o poço de tristeza social e fingi uma felicidade que se fez real.

Fiz, a partir de uma gastronomia encantadora e diversificada das minhas geografias, um funge adaptável aos gostos e condições da grande maioria. Embebedei o desrespeito pelo passado com o maruvu da melhor seiva.

Ser angolano é encontrar-se em sotaques influenciados por sonâncias dos dialectos com que nascemos. Reflectir pragmatismo e humilde literária e linguística num calão que dá ao Português adaptado a simplicidade dos musseques onde nasceu e onde se renova.

Certamente, não sou povo único em relação intensa e centenária com o sofrimento e a injustiça, consumidores dos homens e das nações. Mas como posso negar a estes fiéis companheiros um pequeno lugar na minha identidade?

Entre os pretos atidos ao indesenvolvimento geográfico, rotino-me no sacrifício sobrevivente do país da poeira milionária.

O paradoxo desgastante da fome prevalente da terra abastada do café e da mandioca é radical motivador do meu activismo, da minha luta pela influência na formação de opinião e da falácia que se vinculou a mim, que nada vale na cegueira da baixa escolaridade do meu irmão corrompido, no seu apego fundido à carência a que se habituou.

Furtada pelo sofrimento vincado na injustiça e na pobreza que faz rosto dessa identidade, mergulhou-se num lugar indefinido a humildade e moralidade que me faltam. Fez-se da negociata de alguns a política de todos. Ciência, cultura, desporto e religião, todos se vergaram vergonhosamente à politicidade da abastança discriminatória.

Despiu-se o corpo e descalçaram-se os pés do futuro, porque a ambição mora no presente vivo. Frustrou-se o brilho dessas cores e nasceu fardo num constrangimento de as carregar.

Sou Palanca Negra, mais um jogador dessa equipa a que todos pertencemos, onde juntos lutamos todos os santos e endemoniados dias para nos defendermos da miséria e da perdição que a todos perseguem.

O mar traz-nos à vista o horizonte longínquo infinito da esperança e das possibilidades que nos embebedam em fantasia, nos privilegiam com as brisas de frescura libertadoras das almas oprimidas e nos apresentam ao incontável deste diferente mundo infinito das vistas e medições.

O que não se une em geografia, une-se em história, gente, cultura e espiritualidade. Cabinda que o diga, até das águas bravas que se mostravam muralhas intransponíveis fazemos pontes amigas da nossa inquebrável união.

Sou parte dessas grandezas e beldades intimidantes de um mundo inseguro e inibidor de ameaças aos donos da hegemonia.

Na ilusão de uma urbanidade alheia e para mim ilegítima, envergonhei-me do campónio interior que a história alimentou em mim e enterrei o camponês nutridor nacional em trivialidades citadinas alheias.

Roubei-me a paz interior quando enterrei o reconhecimento do combatente destemido conquistador da minha alforria que, desprovido das protecções sociais, se perdeu na vagabundagem de um abandono amargo e morreu algures por aqui, sem descanso, desonrado nas ofensas da minha indiferença.

Vislumbro-me no resiliente trabalho da zungueira, deambulante intermunicipal, atendente infalível de seus deveres de esposa e mãe de família.

Culpo e discrimino com o meu repúdio mais profundo o polícia inocente de sua servidão a interesses de gentes beneficiadas de sistemas corruptos, que fazem deles agentes da manipulação astuta das rédeas das forças da ordem pública, que, na cegueira da sua deseducação e no baixo grau de criticismo da grande maioria, se deixam guiar pelos impostores criadores do sistema desequilibrado e inumano da nossa sociedade.

Sufoco-me na adoração da política que se fez religião ortodoxa mediadora da luta de classes irracional, que justifica o uso desmedido de recursos, e responsável pela definição dos caminhos por que trilhamos o nosso desenvolvimento.

Ser angolano é aprender a vibrar na significância de datas como 11 de Novembro; 4 de Abril; 17 de Setembro, 22 de Fevereiro e 2 de Agosto; 4 de Fevereiro e/ou 15 de Março; e muitas outras. É pertencer a uma África transcendente que renascerá tão logo se una, tão logo se liberte e se emancipe.

É ser como os rios que irrigam vida por entre os aléns desta terra fértil: permanente cursor da minha natureza.

É encontrar arco-íris entre as cores da bandeira que conta a nossa história. É encontrar-se num hino nacional que une diferenças sem as obliterar e que impele à harmonia na aceitação, ao respeito e à contemplação de mim no outro. Porque vejo Angola no Ovimbundu, tal como a vejo no Lunda-kioko, e vejo-os a todos numa perspectiva concêntrica.

Aprendi os riscos do sossego num empate a quatro entalado na garganta que até hoje sabe a derrota. Em contrapartida, vivi euforia nos lances acrobáticos dos golos inesquecíveis que nos concederam breves momentos de glória.

A custo de sangue, venci a cólera de infecções mortíferas associadas às condições sociais das minhas comunidades. Pernoitei inutilmente nos hospitais vezes sem conta, para manifestar apoio moral e espiritual ao meu irmão enfermo, pois mesmo na indiferença prática da minha presença venço o sentido de impotência que me tenta consumir.

Ao contrário do que se observa nos dias que correm, aprendi a prestar solidariedade na iminência da necessidade alheia e a rejeitar recompensas em tais circunstâncias, aprendi a esperar a justiça divina da natureza coerciva no karma que dá a sapalo o que é de sapalo.

Nego-me a apropriação daquilo para que não trabalhei, mesmo que caia do céu ou que o encontre na rua provocando o meu bom senso.

Eduquei toda uma geração com tabus, preconceitos e uma vara de ardência difícil de esquecer, que se mostraram superiores aos paradigmas lectivos dos tempos actuais ditos sofisticados.

Sou paciente, desesperado refugiado no curandeirismo de uma tradição de linhagens seculares, que me sana o corpo e o espírito, tanto porque funciona quanto porque acredito. De igual modo, sou vítima da feitiçaria de que a natureza da minha nobre cultura foi ardilosamente acusada.

Subjuguei-me por uma alienação difícil de caracterizar e sobre a qual recaem muitas teorias explicativas e especulativas. Sou acusado de ser o mais vendido e trivial da grande África, por fazer de mim a nação do faz-de-conta, onde a aparência se fez unidade de medida do meu valor, e diplomas e fatos se sobrepuseram ao conhecimento e ao carácter.

Tornei-me crítico tenaz de tudo o que o mundo me permite criticar, fiz-me juiz de todos, menos de mim mesmo, tudo pela frustração da minha irrealização e do meu fracasso, de que responsabilizo os outros.

Hoje, enroscado num abraço forte ao infortúnio, espero que a natureza, em seu altruísmo e filantropia, me conceda um salvador que resolva os problemas, espero-o na política, na economia, na cultura e na espiritualidade. Espero-o numa esperança que manifesta a minha ignorância dos ensinamentos da história. Porque não aprendi com ela.

A independência de 75 foi o início de um ciclo que só se vai fechar quando cada um de nós esperar, unicamente, de si e do seu trabalho a Angola que quer do amanhã.

Deveras, cada ser humano dessa terra entende-a de modo particular, de acordo com a sua concepção do nacionalismo e do mundo, mas todos partilhamos nas nossas ideias da angolanidade a aceitação de uma pertença pluripessoal de sentido tão maternal, que os meus irmãos malianos, congoleses, senegaleses etc. se sentem acalorados, como que em casa. Sou tão benevolente que, na despreocupação do meu actual viver, abraço o português, o chinês, o americano e outros, numa irmandade que a pureza que me sustenta permite construir.

Acredito que se descobrirá que sou coração do mundo, que a minha laicidade conciliou aqui a relação entre os mais diferentes Deuses num dar as mãos sem segundas intenções, e que na alegria da minha hospitalidade sincera fiz de todos que por aqui passaram angolanos amantes desse país empoeirado do desenvolvimento mas polido da transparência sentimental.

Isso é ser angolano, aceitares a minha visão de ser e eu aceitar a tua. Vejo, no poder da angolanidade, potencial para apaziguar o mundo e fazer dele um lugar melhor, sem roubo de protagonismo nem esquemas egoístas.

Paz para ti e para mim!”

— Paulo Malungo da Silva Júnior

 

Últimos artigos

“Somos Cuca” ou a liquidificação palatal da angolanidade

“Somos Cuca” ou a liquidificação palatal da angolanidade

O que a Cuca vem fazendo, desde a um tempo a esta parte, é uma invasão cultural – e porque não política? – da identidade angolana, tentando recriar uma nova imagem do ser angolano no mundo. Reduzir a identidade nacional à imagem de uma marca de cerveja ultrapassa a materialidade apelativa da estrutura instalada no espaço público como peça gráfica de publicidade. Atinge a pátria angolana.

Share This